terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Crise de identidade no Canadá.

Um certo dia, antes de dormir, comecei a pensar muito e em muitas coisas. Meus pensamentos falavam tão alto que não me deixaram pegar no sono. Pensei muito mesmo em como estava tudo tão diferente na minha vida ao ponto de eu nem sequer saber se não tem nada de novo acontecendo ou se tá tudo acontecendo ao mesmo tempo. Daí, levantei e vim pra cá escrever o que eu estava sentindo. Comecei então a fazer uma retrospectiva dos 5 últimos meses. Os momentos pré-Toronto, a ansiedade, as despedidas, as incertezas, o medo, o nervosismo tudo passou pela minha cabeça.

A partir da minha chegada, começam um pouco de tudo misturado a fragilidade da distância física de quem se ama, o desapego da velha rotina e a tentativa de adaptação da nova vida que me esperava. É engraçado como nessas circunstâncias tudo que a gente vive, todas as emoções, todos os sentimentos, todos os questionamentos, passam a ser multiplicados por mil.

Se você ama, ama mais, se odeia odeia mais, se tem motivos pra sorrir, tem crises e mais crises de risos, se tem motivo pra ficar triste, se afoga em lágrimas por horas e horas. Fui percebendo então que talvez é justamente por todo esse "mix" multiplicado de sentimentos que a gente se envolve mais, se apega mais rápido, sente falta do que nunca teve e saudade do que nunca viveu. É quando a gente começa a se dar conta do quão estranho é a relação que temos com as pessoas que passam a fazer parte da nossa vida.

Pessoas que você nunca viu que do dia pra noite se tornam seus melhores amigos, seus maiores amores. Você passa a se sentir atraído pelo que ou por quem jamais te atrairia antes, passa a amar e a dizer um eu te amo com a mesma facilidade de que se dá um bom dia quando se encontra com um vizinho na saída de casa. Chega a ser ridículo a necessidade de atenção, de carinho, de cuidados e de contato físico. Assim como chega a ser cômico o descaso pelo que vem pela frente e a falta de importância para consequências futuras do que se estar fazendo no momento presente.

É como se a cada dia que passasse, você apagasse o anterior, não tivesse nem ai para o dia seguinte e quisesse se jogar vivendo o presente. Você definitivamente passa a se sentir perdida dentro de si mesma, sem saber se você se considera mais forte por ta vivendo uma vida nova e que te fará diferente por toda vida, ou se se sente mais fraco por tantas e tantas vezes perceber a fragilidade contida até mesmo na tentativa de enganar a si mesma de que tudo nessa tal nova vida são flores e cores.

É divertido como a gente passa a dizer coisas que antes não tínhamos coragem e fazer coisas que antes não tínhamos audácia o suficiente. Você fala, faz, sente, vive, e depois é que pensa. O ruim, é quando se percebe que nada do que foi feito ou dito deveria ter ocorrido, e o idiota, ou não, vai saber, é que mesmo sabendo que nada deveria ter sido dito ou feito, será dito e feio tudo novamente. É incrível a falta de vergonha na cara que nos faz incorporar um tipo de personagem que é totalmente diferente do que somos de verdade. Se você era tímido deixa de ser, se é reservado passa a ser folgado, se é calado passa a falar pelos cotovelos. Se cria misteriosamente a capacidade de tentar de tudo um pouco, até o que não se gosta ou o que não nos desperta o menor interesse.

Algumas pessoas encaram tudo bem diferente, uma viagem a mais, uns meses de férias, um tempo de curtição, talvez por que para essas pessoas tudo seja mesmo assim. Não existem dúvidas e nem incertezas, pelo contrário, se tem data de chegada, de partida e a convicção que o que aqui foi feito aqui ficará e que se foda todo o resto. Se leva o aprendizado, a experiência, as amizades, as lembranças. Se deixa... Bem, se deixa, sem muitos comentários a respeito.

O que se sabe é que vale a pena, tudo vale a pena. Tudo mesmo, pois até mesmo os passos mal dados nos servem de aprendizado. Eu, há uma altura dessa passo a não saber mais de nada, aliás, sei, sei que eu tenho ainda um longooooooooo caminho aqui “Nesse tal de Canadá”, que muita coisa vai acontecer, que muita coisa logo vai embora junto com a neve, e que outras permanecerão para o resto da vida. E, que cabe a mim, só a mim e a mais ninguém, escolher as coisas que ficam guardadas, que eu levarei comigo por onde eu for, e as que serão jogadas pela janela, pra derreter junto com a neve de forma que quando o verão chegar, nenhum vestígio restar.

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